quarta-feira, 26 de agosto de 2009

LOGÍSTICA REVERSA NA CONSTRUÇÃO CIVIL - DESAFIO

APLICAÇÃO DO CONCEITO DE REDE LOGÍSTICA REVERSA NA
CONSTRUÇÃO CIVIL
RESUMO
A indústria da construção civil evoluiu muito, tanto no escopo da engenharia como na gestão e comercialização do seu negócio. A incorporação de conceitos da logística tradicional e da logística reversa na construção civil tende a aumentar a competitividade entre as empresas. Mas essa indústria caracteriza-se pela ampla variedade de materiais e pela grande diferenciação de processos e produtos, dificultando a implementação desses conceitos e processos. Esse trabalho discute a importância da aplicação do conceito de rede logística reversa na indústria da construção civil, tratando a reciclagem do entulho e da areia.
A reciclagem do entulho pode ser feita através de uma rede em um nível, enquanto a reciclagem da areia se baseia na estrutura de uma rede em dois níveis. O resultado da implantação de rede logística reversa pode gerar economias da ordem de 70% minimizando o desperdício e reduzindo custos.
INTRODUÇÃO
O setor da construção civil vem sofrendo grandes modificações com o avanço tecnológico,ganhando em termos de qualidade, produtividade, redução de custos e competitividade entre as empresas. A adoção de práticas de racionalização e otimização, o emprego de tecnologias de materiais e de técnicas operacionais mais aprimoradas empregadas na indústria da construção civil tem o objetivo de viabilizar empreendimentos e aumentar a competição entre as empresas do ramo.
A indústria da construção civil destaca-se pela ampla variedade de materiais que utiliza bem como pela grande diferenciação em seus processos e produtos. Por esse motivo, se faz necessário o emprego de conceitos gerenciais focando aspectos de planejamento, controle, avaliação de desempenho e custos. O ciclo planejamento- programação – execução – acompanhamento é um dos fatores crítico dessa indústria, fazendo com que o objetivo seja a apresentação de um resultado final das diversas atividades que interagem entre si, devidamente compatibilizadas, gerando produtos que caracterizam seu desempenho. Estima-se que a construção civil seja responsável por até 50% do uso de recursos naturais em nossa sociedade, dependendo da tecnologia utilizada. Pode dizer também que, na construção de um edifício, o transporte e a fabricação dos materiais representam aproximadamente 80% da energia gasta. A diversidade de materiais empregados e a grande utilização de recursos naturais mostram a importância do reaproveitamento desses na indústria da construção civil.
A reciclagem de materiais do entulho é uma das formas de se obter vantagens competitivas dentro da construção civil. Segundo Pinto (1987) e Zordan (1997), a composição do entulho proveniente de canteiros de obras, mostra que cerca de 64% do material é formado por argamassa, 30% por componentes de vedação (tijolo maciço, tijolo furado, telhas e blocos) e 6% por outros materiais, como concreto, pedra, areia, metálicos e plásticos. Estudos mostram que a produção de agregados com base no entulho pode gerar economias de mais de 80% em relação aos preços dos agregados convencionais e que a partir do material do entulho é possível fabricar componentes com uma economia de até 70% em relação a similares com matéria-prima não reciclada.
Em alguns países como EUA, Japão, França, Itália, Inglaterra e Alemanha a reciclagem de entulho já se consolidou, com centenas de unidades instaladas.
Segundo Barros et al (1998), na Holanda, 70% do desperdício da construção já é reciclado e o governo pretende aumentar esse valor para 90%. No Brasil, o reaproveitamento do entulho ainda é restrito, sendo utilizado basicamente como material para aterro e, em muito menor escala, à conservação de estradas de terra.
O objetivo desse trabalho é mostrar a importância da aplicação do conceito de rede logística reversa na indústria da construção civil, enfatizando a reciclagem do entulho e a reciclagem da areia.
A LOGÍSTICA NA CONSTRUÇÃO CIVIL
A indústria da construção evoluiu muito nas últimas décadas, tanto no escopo da engenharia como no modelo e comercialização do seu negócio. Devido a grande concorrência no setor da construção civil, as empresas estão em busca da eficiência tanto técnica quanto econômica.
Porém, nota-se que essa evolução se fez de forma adjacente à evolução da tecnologia da informação e de ferramentas de gestão incorporadas no setor da construção civil. O uso de conceitos de gestão se torna baixo quando comparado com outras cadeias produtivas como, por exemplo, nas empresas do setor industrial. A construção necessita de agilidade nas informações e de meios disponíveis e seguros para a tomada de decisões. É nesse contexto que cresce a importância da logística. A análise das variáveis da logística nas obras de construção civil possibilita a caracterização dos problemas enfrentados por essa indústria,sendo possível selecionar um conjunto de técnicas mais adequadas que podem ser empregadas nesse ambiente, visando a otimização de processos tanto diretos como reversos e redução de custos.
Com o aumento da competitividade entre as empresas, elas viram a necessidade imediata de adoção de técnicas de produção ao menor custo possível, mantendo a qualidade acima de tudo. Segundo Cardoso (1996), a racionalização da produção pode ser vista como a representação de fontes e mecanismos de eficiência, tento em vista as variáveis presentes no mercado e a capacidade de analisá-las, formalizá-las e operacionalizá-las em ferramentas e métodos de organização, gestão e em tomadas de decisão. O setor de compra é uma das atividades que mais se têm gastos dentro de um empreendimento. Dependendo do porte da obra, uma edificação aponta 40% de gastos com materiais de construção, podendo chegar a 50%.
De acordo com Lalt (2003b), outros problemas encontrados na construção civil são aqueles relativos aos fluxos físicos de materiais e produtos processados e aos fluxos de informações.
A falta de planejamento detalhado do arranjo físico do canteiro estabelecendo os fluxos dos principais materiais, a eliminação de fluxos desnecessários, a otimização dos estoques, a mecanização das atividades de movimentação interna do canteiro levam a perdas e desperdícios.
Para facilitar a aplicação do conceito de logística na indústria da construção civil, foi proposta
a divisão da logística em logística externa e logística interna. Segundo Cardoso (1996), a logística externa é a logística de suprimentos e a logística interna é a logística do canteiro.
Essa subdivisão pode facilitar a identificação das principais atividades de logística associadas a uma obra.
A logística de suprimentos trata da previsão de recursos materiais e da mão de obra que serão utilizados na obra. Além disso, engloba o planejamento e processamento das aquisições, as interfaces com os fornecedores, o transporte de recursos até a obra e a manutenção de recursos materiais previstos no planejamento.
Já a logística do canteiro trata da gestão dos fluxos físicos ligados à execução de tarefas;gestão dos fluxos de informações; gestão da interface entre agentes que interagem no processo de produção (empreiteiros, fornecedores), mão de obra terceirizada, movimentação interna e definição dos locais para estocagem de materiais.
É importante ressaltar que esses processos não podem ser adotados de forma independente, e sim de forma complementar e integrada para que se consiga benefícios conjuntos e não isolados. Para isso existem técnicas e conceitos que já são utilizados na indústria de bens manufaturados, como por exemplo, o JIT (Just in time), o MRP II (Manufaturing Resources Planning) e a logística reversa.
O JIT (Just in time) e o MRP II (Manufaturing Resources Planning) são técnicas utilizadas no sistema de administração de produção, que tem como objetivo planejar, controlar, coordenar e integrar o processo de manufatura (fornecedores – empresa –produção - cliente). A produção just – in – time, ou produção no momento certo procura obter flexibilidade para o atendimento
de alterações na demanda, através do fluxo contínuo de materiais. O JIT quando aplicado à construção civil tem como objetivos a eliminação de estoque, flexibilidade, produção em pequenos lotes, produção puxada, e por fim a integração externa e interna fortalecendo a relação fornecedor/cliente. Além desses elementos, existem outros que caracterizam o sistema de administração de produção do just in time, como por exemplo, a eliminação dos defeitos no processo de produção, diversificação da capacidade com emprego de mão de obra multifuncional, manutenção preventiva, revisão constante dos projetos, layout compacto,entre outros.
Em relação à logística reversa a aplicação dos conceitos na construção civil se mostra importante, pois, hoje, ela ocupa um espaço importante na operação logística das empresas,quer pelo potencial econômico, quer pela sua importância para a preservação de recursos e do meio ambiente.Segundo Lalt (2003a), a logística reversa agrega custos às operações, portanto,essa atividade deverá ser cada vez mais estudada e aperfeiçoada pelas empresas. De acordo com Fortes et al (2004), para a implantação da logística reversa é necessária a criação de novos postos de trabalho para o recolhimento dos produtos descartados, para a separação dos materiais e o seu beneficiamento, permitindo a reutilização destes materiais como insumos na manufatura de novos produtos acabados.
De acordo com Lacerda (2002), dependendo da atividade que está sendo feita, existem fatores críticos que podem influenciar o gerenciamento da cadeia logística reversa. Esses fatores variam desde bons controles de entrada, passando pelos processos padronizados e mapeados,redução dos tempos de ciclo, implantação de sistemas de informação, planejamento da rede logística e relações colaborativas entre clientes e fornecedores. As práticas avançadas de logística reversa requerem um planejamento adequado, que vise a amplitude do processo e o resultado final. Os mesmos conceitos de planejamento do fluxo logístico direto tais comoestudos de localização de instalações e aplicações de sistemas de apoio à decisão
(roteirização, programação de entregas etc.) deverão ser aplicados na logística reversa.
Na indústria da construção civil, a implantação da logística reversa está um pouco distante deacontecer na sua forma plena, já que ainda existem problemas na implantação da logística dos fluxos diretos.Mesmo com o surgimento de novas demandas no mercado da construção civil,a busca por sistemas e processos construtivos que geram menor impacto ao ambiente urbano está cada vez maior. A importância da implantação de processos para gestão e reciclagem de resíduos de construção, até técnicas mais avançadas para a geração e conservação de energia, coleta de águas pluviais e sistemas para garantir a qualidade do ar no interior das edificações estão sendo observadas pelos construtores em busca de melhor qualidade do empreendimento.
Os conceitos da logística reversa e a caracterização das redes reversas podem ser aplicados na indústria da construção civil. Umas das dificuldades encontradas é separar os componentes de uma obra quando esta foi demolida ou não está sendo mais utilizada. Segundo Ângulo et AL(2003) e Hendriks (2000), apud John, Ângulo e Agopyan (2003), o processo de demolição das obras não é seletivo, gerando um resíduo de construção e demolição como um misto de concretos, alvenarias, revestimentos e outros. Esta mistura reduz as possibilidades de utilização do resíduo como produto reciclado. No presente trabalho o destaque será na reciclagem enfatizando a reciclagem do entulho e mostrando um estudo de uma rede reversa em dois níveis para a reciclagem da areia.

O USO DE REDES REVERSAS NA RECICLAGEM DE ENTULHO
O entulho, segundo Levy e Helene (1997) é definido como sobras ou rejeitos constituídos por todo material mineral oriundo do desperdício inerente ao processo construtivo adotado na obra nova ou de reformas ou demolições. A sua ocorrência no meio urbano o define como um resíduo sólido urbano e sua constituição pode ser variável em função de sua origem. O entulho pode ser originado basicamente de três formas: de novas construções, de reformas e de demolições e o destino final deve ser de responsabilidade do quem o gerou.
De acordo com a Resolução CONAMA 307 de 05 de Julho de 2002, que estabelece diretrizes,critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil, considera que osgeradores de resíduos da construção civil devem ser responsáveis pelos resíduos das atividades de construção, reforma, reparos e demolições de estruturas e estradas, bem como por aqueles resultantes da remoção de vegetação e escavação de solos.
Segundo Miranda e Selmo (1999), as grandes perspectivas para a reciclagem de entulho de construção civil são a construção de centrais de reciclagem, que possam produzir argamassas,concretos e pré-fabricados em volumes compatíveis à velocidade de geração de entulho nas grandes cidades, mas que garanta um nível mínimo de controle tecnológico produzindo materiais com desempenho adequado.
A tabela 1 mostra, segundo Pinto (1987) apud Zordan (1997), a composição do entulho
proveniente de canteiros de obras.

Tabela 1 – Composição Média dos Resíduos de Construção
ELEMENTO %
Argamassas 63,67
Tijolos Maciços 17,98
Telhas, lajotas, etc 11,11
Concreto 4,23
Bloco de Concreto 0,11
Ladrilhos de concreto 0,39
Pedras 1,38
Cimento – amianto 0,38
Solo 0,13
Madeira 0,11
papel e matéria orgânica 0,20
FONTE: Pinto (1987) apud Zordan (1997), p. 5.

A argamassa é o elemento com a maior porcentagem na composição média dos resíduos da
construção civil, sendo equivalente a 63,67%. Mas um estudo desenvolvido por Miranda e Selmo (1999) mostra que trabalhos nacionais que se referem ao entulho reciclado em
argamassas são poucos e foram desenvolvidos por Pinto (1986), Hamassaki et al (1996), Silva et al (1997) e Levy (1997). O estudo desenvolvido por Miranda e Selmo (1999) mostrou queas argamassas que continham maiores teores de bloco de concreto destacaram-se por um ligeiro aumento no consumo de entulho, mas para um custo praticamente constante e igual ao das argamassas com as quatro composições de entulho estudada. Eles concluíram que os principais benefícios da utilização de entulho para a fabricação de argamassas podem ser os reflexos ambientais e sociais pela redução de lixo urbano a partir da evolução das usinas de reciclagem do ponto de vista técnico e econômico.
A Resolução CONAMA 307 de 05 de Julho de 2002 estabelece que são considerados resíduos da construção civil os tijolos, blocos cerâmicos, concreto em geral, solos, rochas, metais,resinas, colas, tintas, madeiras e compensados, forros, argamassa, gesso, telhas, pavimento asfáltico, vidros, plásticos, tubulações, fiação elétrica etc., comumente chamados de entulhosde obras, caliça ou metralha complementando a tabela 1 citada anteriormente.

CONCLUSÕES
A aplicação dos conceitos de logística já está bem consolidada quando se refere à cadeia de suprimentos tradicionais em empresas manufatureiras. No caso da indústria da construção civil isso não ocorre. A incorporação de conceitos da logística tradicional e da logística reversa na indústria da construção civil pode auxiliar no desenvolvimento de empresas mais competitivas. A crescente preocupação com a questão ambiental está forçando a busca por processos e resultados que possam melhorar o relacionamento entre os elementos da cadeia de suprimentos no sentido do fluxo reverso. O conceito de rede logística reversa, incluindo o processo de reciclagem está recebendo uma atenção especial de pesquisadores que vêem a necessidade de reaproveitar a grande quantidade de materiais utilizados na construção civil.
As redes reversas, quando bem implementadas auxiliam na diminuição dos desperdícios e na minimização de custos. O trabalho apresentou duas abordagens para o problema de redes logísticas reversas na construção civil. Para o caso da reciclagem de entulho a rede é deapenas um nível e para o caso da reciclagem de areia, onde a rede é de dois níveis. A reciclagem do entulho produzido na construção civil pode ser uma alternativa viável para suprir a necessidade de produção de materiais com qualidade e com um preço mais acessível.
Os estudos apresentados podem ser aplicados em outros materiais como, por exemplo,
plásticos, materiais cimentícios, madeiras, materiais cerâmicos e metais. No caso da madeira,a aplicação da rede em dois níveis seria mais adequada, já que o material, na maioria das vezes se encontra pintado, tendo que passar por algum local de tratamento antes de ser reciclada. No caso das telhas, que correspondem a 11,11% da composição do entulho gerado, a aplicação de uma rede logística reversa de um nível se mostra mais adequada. As telhas retornam na rede passando pela usina de reciclagem podendo ser britada e reaproveitada como agregado não estrutural.

Janaina Antonino Pinto
Orlando Fontes Lima Júnior
LALT – Laboratório de Aprendizagem em Logística e Transportes
DGT – Departamento de Geotecnia e Transporte
FEC – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo
UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas

Cidade Universitária “Zeferino Vaz”
Barão Geraldo-Campinas - SP
Fone/Fax (19) 3788 2346
Site www.unicamp.br/~lalt
E-mail: lalt@fec.unicamp.br

5 comentários:

  1. Dayana Caroline Nazario22 de agosto de 2011 01:14

    Muito bom esse artigo, adorei! meus parabéns!

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  2. muito bom, gostei muito...

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  3. Tenho interesse em abrir uma usina de reciclagem de RCD.Procuro interessados especializados para consultoria. Com quem devo entrar em contato?

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  4. Mto bom, PARABÉNS, me ajudou mto, eu estava realmente precisando de uma boa explicação sobre a logística reversa, e no meu caso a da construção civil, irei apresentar um trabalho sobre isso, e eu tenho uma pergunta: Quais o lugares aqui no Brasil que está sendo usada essa tipo de logística( na construção civil em especial)?????? moro em Natal-RN e gostaria mto de saber se existe no meu estado, ou em estados vizinhos. Bjos, e gostaria mto de obter uma resposta ;)

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